Nem sei se é assim que se escreve o nome daquele lugar remoto, onde se juntam três freguesias, Macieira, Courel e Gueral, e não vive ninguém, pois é lugar de mato, pinheiros e eucaliptos e, talvez, algum animal bravio que ali se esconda. Sardões há muitos, pois os via esticados ao sol em dias de calor, quando passava nos carreiros que me levavam ao meu destino!
Em oposição aos Araújos que é local de terras baixas e alagadiças, já na freguesia de Macieira, talvez o nome verdadeiro seja "Outeirais" e não Eiteirais, uma espécie de meio caminho entre as terras baixas de Macieira e o Monte de Courel (Outeiro), por onde segue o Caminho de Santiago, em que peregrinam os crentes do apóstolo Tiago.
Porque me decidi a falar deste lugar ermo e sem interesse aparente, perguntarão vocês que não sabem o que me vai no pensamento nem conhecem a minha história. Bem, em primeiro lugar por ser Agosto, mês em começam a poder tragar-se algumas uvas americanas que amadurecem antes das outras. Em segundo lugar, porque era nesse lugar, num campo de solo barrento pertença do Júlio de Gueral que corre para norte encostado a um bosque de pinheiros e eucaliptos, que existia uma ramada de videiras americanas, em que se podiam encontrar os primeiros cachos de uvas que faziam as nossas delícias, depois de um ano inteiro à espera.
O meu pai, trabalhador agrícola, passou muito tempo por esses lugares e eu fiz-lhe companhia muitas vezes, ora por gosto ora por obrigação. Zona de poços e minas para armazenar água que fazia falta para a rega de verão, os Eiteirais eram uma espécie de recreio para mim. Descer aos poços e explorar as minas foi o meu desporto, logo que as minhas pernas ganharam a amplitude necessária para pôr um pé em cada parede do poço e descer mudando os pés, ora o esquerdo ora o direito, nas "pégadas" escavadas nas paredes de barro espesso do poço.
Antes de começar a época das regas, era preciso limpar os poços e as minas, de modo que o engenho, puxado por uma junta de vacas, pudesse puxar a água sem problemas. Mais ou menos na mesma época, o meu pai andava nessa mesma zona a arrancar "trepos" (raizeiros) de pinheiro e eucalipto para fazer lenha para o forno de cozer o pão. Primavera e princípio do Verão para rachar os trepos e pôr as achas a secar para poder cozer o pão, durante todo o inverno, sem problemas.
Vida de pobre mesmo, durante o meu tempo de Escola Primária, fui ajudante do meu pai nessa tarefa. Não é que as minhas forças fossem muitas, mas havia pequenas tarefas que conseguia fazer sem problema e fazia com que o "velhote" enchesse a giga de achas mais depressa. Rasar as covas, depois de tirado o trepo, era tarefa minha que já manejava a sachola como um adulto.
Mais que tudo, eu lembro-me dos Eiteirais como uma espécie de estrada do conhecimento que comecei a trilhar, em Outubro de 1950, pois fui matriculado na Escola Primária de Courel (por falta de lugar na de Macieira) e manhã cedo, de sacola ao ombro, percorria o carreiro aberto entre o mato e passava pelos "portelos" abertos nas paredes das bouças que eu atravessava a caminho da escola.
À cata de lenha ou de caruma, acompanhei muitas vezes a minha avó por esses sítios que me ficaram na memória e vejo-os, hoje, depois dos 80 anos, como um filme em que eu fui o actor principal. E o sabor das uvas americanas do campo do Júlio prevalece ainda na minha boca como se estivesse a saboreá-las agora!





























